TNE e suas dificuldades

 


A terapia de nutrição enteral (TNE) é a primeira opção quando a alimentação oral não for possível, porém, desde que não haja contraindicação absoluta a sua utilização. O início precoce da TNE, nas primeiras 24 a 48 horas após admissão, é recomendado, sendo que o alcance das necessidades energéticas aconteceram apenas  nas 48 a 72 horas seguintes.

As evidências sugerem que o uso da TNE é capaz de atender à demanda dos nutrientes necessários, além de manter a integridade intestinal, atenuar a resposta inflamatória, diminuir a translocação bacteriana, reduzir o tempo de internação e risco de infecções e complicações e impacta favoravelmente o desfecho dos pacientes.

Sabemos que o uso da nutrição enteral nos pacientes críticos proporcionam vários benefícios, porém, nem todos os pacientes admitidos na UTI recebem toda a nutrição prescrita, visto que há diversas barreiras que levam à interrupção da oferta nutricional planejada. Dentre essas intercorrências estão o atraso na administração da dieta, as disfunções gastrointestinais, os problemas relacionados à sonda nasoenteral (SNE), o jejum para a realização de procedimentos e exames e a instabilidade clínica do paciente.

Essas interrupções somadas a uma oferta nutricional inadequada podem contribuir significativamente para a incidência de desnutrição calórico proteica em internados na UTI. Por isso, essa adequação representa um grande desafio no tratamento do paciente crítico. Gonçalves et al, realizou um estudo em Pelotas – RS e encontrou dados preocupantes de que 34,4% dos pacientes receberam menos de 70% da dieta prescrita. É irreal assumir que todas as interrupções da dieta possam ser impedidas, entretanto, é crucial identificar as barreiras mais frequentes e as mais relacionadas à inadequação nutricional e tentar minimizá-las para assim, proporcionar um melhor prognóstico para esse paciente, evitando que o mesmo tenha um déficit significativo de proteínas e calorias durante a internação na UTI.

Estudo realizado em Santa Catarina, por Walczewski et al, identificou 248 interrupções, destas, 25,8% devido a sintomas gastrointestinais, seguido de 22,17% e 15,72% para realização de procedimentos e exames, respectivamente. Outro estudo indiano também demonstrou que cerca de um quarto (24,03%) das interrupções foram secundárias a disfunções gastrointestinais.

Para alcançar o objetivo de maximizar a adequação calórico proteica, protocolos de nutrição enteral deveriam focar em reduzir o tempo das interrupções e, quando isso não for possível, criar estratégias para compensá-las. Artigos recentes propõem algumas soluções como, classificar os doentes em escores – a fim de identificar aquele que terá maior benefício com a terapia – e definir o tempo mínimo para parar a TNE antes de cada procedimento. Além disso, garantir integração multidisciplinar para o manejo da dieta, com nutricionistas, médicos e enfermeiros, para fornecê-la conforme o recomendado pelas diretrizes e protocolo de cada UTI.

 

Fonte: BRASPEN J. 2017;32(4):341-6; BRASPEN J 2019; 34 (4): 329-35

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