Impacto do microbioma Intestinal no eixo Cérebro-Intestino

 

O intestino humano abriga cerca de 100 trilhões de bactérias, número dez vezes maior do que a quantidade  de células  que forma todo o corpo humano. O  chamado microbioma intestinal é composto por uma massa estimada  de 1 kg de bactérias, que pode chegar a  compor cerca de 50%  da massa fecal, e que se caracteriza  por  uma complexa população  de mais de 1.000 espécies de organismos com estrutura genômica  bastante sofisticada.  Esse  verdadeiro  ecossistema  integra o mecanismo de homeostase corporal, de forma que distúrbios  da microbiologia intestinal estão implicados  em muitos aspectos  na gênese  da saúde e da doença. Em indivíduos  saudáveis, o microbioma normal é relativamente estável, e compõe com o hospedeiro uma relação de simbiose.

Estudos recentes utilizando modelos animais e estratégias  como infecções gastrointestinais experimentais, transplante de microbioma fecal e utilização  de modelos  isentos de colonização intestinal  (modelos “germ-free”), vêm demonstrando que a íntima relação  do microbioma  com o SNE influencia  de  modo  definitivo  o  funcionamento  do Eixo Cérebro-Intestino.  Tem sido demonstrado, por exemplo, que a colonização intestinal com certos tipos  específicos  de  bactérias  em  modelos  germ-free  foi  capaz  de  modificar  o  comportamento  frente à resposta ao stress.  A  partir de tais observações, abre-se um horizonte de investigação  acerca da influência  do  microbioma  no  neurodesenvolvimento, no comportamento,  na cognição  e na resposta orgânica ao stress.

Um melhor  entendimento do papel  do Eixo Cérebro-Intestino é a resposta ao stress e sua relação com outras condições  de morbidade  mental, como ansiedade,  depressão,  atraso de desenvolvimento cognitivo e  Transtorno do Espectro  Autista  (TEA). Um estudo envolvendo  mais de 100.000  crianças demonstrou  que  aquelas  com diagnóstico  de  TEA tiveram maior prevalência  de problemas  intestinais relatados  pela mãe, tais quais constipação  intestinal, diarreia, intolerância  ou alergias alimentares, quando comparadas  com crianças  com desenvolvimento normal de 6 a 36 meses de idade. Embora a origem dessas interações  não esteja totalmente elucidada, levanta-se  o questionamento  de que  a disbiose relacionada  aos problemas intestinais  relatados exerça  influência  no  neurodesenvolvimento,  posto que tais associações  já foram demonstradas na literatura.

 

 

Fonte: Collins  SM, Kassam Z, Bercik P.  The adoptive  transfer of behavioral  phenotype  via the intestinal  microbiota: experimental  evidence and clinical implications.  Curr Opin Microbiol. 2013 Jun;16(3):240-5.

Dinan  TG,  Cryan JF. Melancholic microbes: a link between gut microbiota  and depression?  Neurogastroenterol Motil. 2013 Sep;25(9):713-9.

 

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