Evolução da dieta no pós operatório de cirurgias digestivas

A nutrição oral pode ser iniciada, na maioria dos casos, imediatamente após a cirurgia, já que nem a descompressão gástrica ou esofágica, nem a ingestão oral tardia, mesmo após colecistectomia ou ressecção colorretal, mostraram-se benéficas. Alimentos normais precoces ou Nutrição Enteral, incluindo líquidos claros no primeiro ou no segundo dia de pós-operatório, não causam comprometimento da cicatrização de anastomoses no cólon ou no reto e levam a um tempo de internação hospitalar menor. Isto foi enfatizado por uma revisão sistemática Cochrane. Meta-análises recentes mostraram benefícios significativos em relação à recuperação pós-operatória e taxa de infecção.

Osland et al, em 2011, avaliou em metanálise 15 estudos com um total de 1.240 pacientes e mostrou que a dieta líquida por Via Oral (V.O) ou enteral liberada nas primeiras 24h de Pós operatório (P.O), reduz em 45% o risco de complicações no P.O e não afeta negativamente resultados de deiscência de anastomose, retomada da função intestinal e mortalidade. Entretanto, na prática clínica, ainda é rotina reiniciar a dieta V.O somente após o retorno da peristalse intestinal e/ou eliminação de flatos. O retorno da peristalse intestinal ocorre entre 5 a 7h , não justificando a permanência do paciente em jejum por mais de 12h no P.O. Além disso, o reinício precoce da dieta estimula a peristalse intestinal contribuindo para o retorno do ritmo intestinal.

A nutrição oral precoce é também um componente chave do Programa Enhanced Recovery After Surgery - ERAS, um programa multidisciplinar, baseado na evidência e centrado no doente, com o objetivo final de diminuir as complicações e melhorar a recuperação cirúrgica, que demonstrou uma taxa significativamente mais baixa de complicações e tempo de permanência hospitalar em meta-análises dos estudos randomizados. Uma meta-análise de 15 estudos (oito ensaios clínicos randomizados) com 2112 pacientes adultos submetidos a cirurgia gastrointestinal alta mostrou estadia hospitalar pós-operatória significativamente mais baixa em pacientes alimentados por via oral precoce sem diferença nas complicações, com especial atenção aos vazamentos de anastomose.

No período pós-operatório hospitalar multicêntrico. , o tempo de permanência foi significativamente menor no grupo ERAS submetido à cirurgia laparoscópica. Uma meta-análise recente confirmou a redução da morbidade e hospitalização por combinação de cirurgia laparoscópica.

Estudos mostram que os benefícios da alimentação precoce ainda são discutíveis, embora ensaios clínicos demonstrem redução das complicações por infecção e redução no tempo de internação. A evolução da dieta V.O no P.O de cirurgias digestivas vai depender das condições clínicas do paciente e do tipo de cirurgia realizada. 

 

Fonte: Weimann A, Braga M, Carli F, Higashiguchi T, Hübner M, Klek S, Laviano A, Ljungqvist O, Lobo DN, Martindale R, Waitzberg DL, Bischoff SC, Singer P. ESPEN guideline: Clinical nutrition in surgery. Clin Nutr. 2017 Jun;36(3):623-650.

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