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Nutrição no Câncer

 

 

Os cânceres estão entre as principais causas de morbidade e mortalidade em todo o mundo, e espera-se que o número de novos casos aumente significativamente nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, todos os tipos de tratamento contra o câncer, como cirurgia, radioterapia e terapias farmacológicas, estão melhorando em sofisticação, precisão e no poder de direcionar características específicas de cânceres individuais. Assim, enquanto muitos cânceres ainda podem não ser curados, eles podem ser convertidos em doenças crônicas. Todos esses tratamentos, no entanto, são impedidos pelo frequente desenvolvimento de desnutrição e disfunções metabólicas em pacientes com câncer, induzidos pelo tumor ou por seu tratamento.

O ponto importante é que, ao contrário da desnutrição simples, o balanço energético negativo e a perda de massa óssea observados em pacientes com câncer são impulsionados por uma combinação de redução da ingestão de alimentos e desequilíbrios metabólicos (por exemplo, elevada taxa metabólica de repouso, resistência à insulina e lipólise) e proteólise que agravam a perda de peso e são provocadas por inflamação sistêmica e catabolismo.

Intervenções nutricionais e metabólicas visam manter ou melhorar a ingestão de alimentos e diminuir os desequilíbrios metabólicos, manter a massa muscular esquelética e o desempenho físico, reduzir o risco de reduções ou interrupções de tratamentos anticâncer programados e melhorar a qualidade de vida. Infelizmente, faltam dados que definam o melhor momento para iniciar o suporte nutricional.

Portanto, a terapia nutricional deve preferencialmente ser iniciada quando os pacientes ainda não estão gravemente desnutridos e quando os objetivos do tratamento incluem manter ou melhorar o estado nutricional. O suporte nutricional deve ser oferecido a pacientes com probabilidade de desenvolver anorexia ou defeitos gastrointestinais devido aos efeitos colaterais do tratamento. Pacientes gravemente desnutridos que estão em tratamento ativo devem receber terapia nutricional imediatamente.

As terapias para desnutrição associada ao câncer incluem o aconselhamento nutricional por um profissional de saúde considerado como de 1ª linha de terapia nutricional, onde o profissional visa proporcionar ao paciente uma compreensão completa dos tópicos nutricionais que podem levar a mudanças duradouras nos hábitos alimentares. Claramente, a melhor maneira de manter ou aumentar a ingestão de energia e proteína é com a comida normal. No entanto, isso geralmente é difícil e, além do aconselhamento, são necessários suplementos nutricionais orais a fim de suplementar a ingestão de alimentos.

Se a ingestão de nutrientes continuar inadequada, a nutrição suplementar ou completa por via oral, enteral ou parenteral pode ser indicada, dependendo do nível de função do trato gastrointestinal.

Geralmente, a primeira forma de apoio nutricional deve ser o controle dos sintomas e o encorajamento da ingestão de alimentos e fluidos enriquecidos com energia que sejam mais bem tolerados. Uma dieta enriquecida em energia e proteína é a maneira preferida de manter ou melhorar o estado nutricional. O uso adicional de suplementação é recomendado quando uma dieta enriquecida não é eficaz para alcançar objetivos nutricionais.

A nutrição artificial é indicada se os pacientes não puderem comer adequadamente (por exemplo, nenhum alimento por mais de uma semana ou menos de 60% da necessidade por mais de 1 e 2 semanas). Se tiver sido tomada uma decisão de alimentar um paciente, é recomendado nutrição enteral se a nutrição oral permanecer inadequada apesar das intervenções nutricionais (aconselhamento e suplementos nutricionais orais) e nutrição parenteral se a nutrição enteral não for suficiente ou viável.

Devido à sua baixa palatabilidade, as dietas cetogênicas podem levar a uma ingestão insuficiente de energia e perda de peso, e além disso, não há ensaios clínicos demonstrando benefício de uma dieta cetogênica em pacientes com câncer. Dois estudos piloto sem grupos controle em pacientes com glioblastoma ou tumores sólidos avançados mistos não observaram respostas do tumor.

Além de apoiar a saúde, o alimento e a alimentação têm papéis importantes na estabilização psicológica e na integração social e, por isso, afetam a qualidade de vida. O aconselhamento nutricional deve considerar e objetivar a manutenção ou melhoria de todos esses aspectos. Isso exigirá averiguar hábitos e preferências individuais. Além disso, o aconselhamento eficaz requer habilidades de comunicação adequadas para garantir a alta conformidade com o aconselhamento nutricional individualizado dado.

 

Fonte:  Arends J, et al. ESPEN guidelines on nutrition in cancer patients. Clinical Nutrition (2016)

 

Ômega 3 no paciente oncológico

 

 

Nos últimos anos, o óleo de peixe tornou-se um popular suplemento nutricional devido a numerosos estudos amplamente divulgados sobre o seu papel no tratamento e prevenção de uma variedade de doenças e distúrbios, tais como doenças coronarianas, artrite reumatoide, depressão, câncer, e dismenorréia.

Em relação ao câncer, os efeitos do óleo de peixe têm sido descritos como protetores, antiinflamatórios, inibidores do crescimento e apoptóticos. Considerando essas evidências, a suplementação com óleo de peixe pode eventualmente se tornar uma terapia complementar estabelecida para o tratamento tradicional do câncer.

Alguns estudos usando modelos animais, mostraram repetidamente que o crescimento de cânceres quimicamente induzidos e de xenoenxertos de câncer humano pode ser retardado ou completamente inibido pela incorporação de ácidos graxos (n-3) na dieta. Existem alguns estudos que indicam que os ácidos graxos (n-3) podem ser benéficos para a terapia do câncer humano.

Vários mecanismos de ação foram propostos para explicar como os ácidos graxos (n-3) podem modificar o processo de carcinogênese, tais como: supressão da biossíntese dos eicosanóides derivados do ácido araquidônico; influência na atividade do fator de transcrição nuclear, na expressão gênica e nas vias de transdução de sinais; alteração do metabolismo do estrogênio; aumento ou diminuição da produção de radicais livres e espécies reativas de oxigênio e; influência nos mecanismos envolvendo a resistência à insulina e a fluidez das membranas.

Os benefícios do uso de suplementos contendo ácidos graxos (n-3) em pacientes oncológicos parecem claros. E considerando os poucos efeitos colaterais relatados, acredita-se que a suplementação desse nutriente esteja indicada nessa população. Para que a intervenção nutricional no câncer atinja seu potencial, os nutrientes envolvidos e o tempo de tratamento específico doses precisam ser otimizadas para interferir adequadamente na carcinogênese e aumentar a taxa de resposta ao tratamento.

 

Fontes: Hardman WE. Fatty Acids (n-3) and Cancer Therapy. J Nutr 2004; 134: 3427S-3430S; Fearon KCH, von Meyenfeldt MF, Moses AGW, et al. Effect of a protein and energy dense n-3 fatty acid enriched oral supplement on loss of weight and lean tissue in cancer cachexia: a randomised double blind trial. Gut 2003;52:1479-86.

Manejo Nutricional do Paciente oncológico

 

 

O câncer é uma enfermidade que se caracteriza pelo crescimento descontrolado, rápido e invasivo de células com alteração em seu material genético. Muitos fatores influenciam o desenvolvimento do câncer, tanto os de causas externas (meio ambiente, hábitos ou costumes próprios de um ambiente social e cultural) como os de internas (geneticamente pré-determinadas), que resultam de eventos responsáveis por gerar mutações sucessivas no material genético das células, processo que pode ocorrer ao longo de décadas, em múltiplos estágios.

A desnutrição calórica e proteica em indivíduos com câncer é muito frequente. Os principais fatores determinantes da desnutrição nesse indivíduo são: a redução na ingestão total de alimentos, as alterações metabólicas provocadas pelo tumor e o aumento da demanda calórica para crescimento do tumor, sendo frequente a ocorrência de desnutrição em indivíduos com câncer.

Propõe-se que a assistência nutricional ao paciente oncológico compreenda desde a avaliação nutricional, o cálculo das necessidades nutricionais e a terapia nutricional, até o seguimento ambulatorial, com o objetivo de prevenir ou reverter o declínio do estado nutricional, bem como evitar a progressão para um quadro de caquexia, além de melhorar o balanço nitrogenado, reduzir a proteólise e aumentar a resposta imune. Uma detecção precoce das alterações nutricionais no paciente oncológico adulto permite intervenção em momento oportuno. Esta intervenção nutricional inicia-se no primeiro contato do profissional nutricionista com o paciente, através de sua percepção crítica, da história clínica e de instrumentos adequados, que definirão um plano terapêutico ideal.

Pacientes neoplásicos, dependendo do tipo de tumor e estadiamento, podem apresentar um requerimento energético maior, principalmente quando submetidos a tratamentos, como a cirurgia. Um método prático para estimar as necessidades energéticas é o cálculo a partir das calorias por quilo de peso corpóreo. O oferecimento adequado de proteínas faz-se necessário devido ao estresse patológico e cirúrgico que favorecem a degradação proteica. Esta ação catabólica resulta em desgaste e fadiga do músculo esquelético, podendo atrapalhar o tratamento e prognóstico do paciente.

Os requerimentos hídricos para pacientes no pré e pós-operatórios são semelhantes ao de indivíduos normais, que são de 1 ml/Kcal ou 35 ml/kg/P. Contudo, ajustes nestes cálculos poderão ser necessários quando ocorrerem perdas dinâmicas, drenagens e retenções hídricas muitas vezes apresentadas por estes pacientes.

A assistência ao paciente oncológico é interdisciplinar para que, desse modo, haja plenitude na atenção ao indivíduo portador de câncer.

 

Fonte: Consenso Nacional de Nutrição Oncológica - Instituto Nacional de Câncer - INCA 2009