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Má nutrição associada ao tratamento do câncer

 

O estado nutricional do paciente oncológico é desafiado pelos transtornos metabólicos induzidos pelo tumor e pelos tratamentos anticâncer. O peso corporal permanece estável quando há equilíbrio entre a ingestão de energia (calorias oferecidas por via oral, enteral ou parenteral) e o gasto energético total (GET) no corpo. A perda de peso corporal ocorre quando há um balanço de energia negativo, estado em que o GET excede a ingestão de energia. O GET é a soma do gasto energético em repouso (GER), do gasto energético em atividade física (GEAF) e do efeito térmico dos alimentos (ETA), onde o GER é a quantidade de energia consumida pelo corpo em repouso e o maior contribuinte para o GET.

No entanto, o valor do GET dos pacientes com câncer, se não mensurado individualmente, deve ser considerado semelhante ao de indivíduos saudáveis , geralmente entre 25 e 30 kcal/kg/dia, de acordo com as diretrizes da European Society for Clinical Nutrition and Metabolism (ESPEN). Já a ingestão de proteína deve ser acima de 1g/kg/dia. Essa sociedade também recomenda o uso de suplementação com ácidos graxos ômega 3 de cadeia longa ou óleo de peixe para estabilizar ou melhorar o apetite, a ingestão de alimentos, a massa magra  e o peso corporal de pacientes com câncer avançado sob quimioterapia e em risco de perda de peso ou má nutrição.

Com o objetivo de identificar os fatores prognósticos nutricionais e os resultados de sobrevida associados à intervenção Nutricional, o estudo SCOPE1 randomizou 258 pacientes para quimioterapia com ou sem cetuximabe. A intervenção nutricional incluiu aconselhamento dietético, suplementação oral ou intervenção maior (nutrição enteral/ colocação de tubo). Os resultados demonstraram que a avaliação pré-tratamento e a correção da desnutrição podem melhorar os resultados de sobrevida em pacientes com câncer de esôfago tratados com quimioterapia. Esse resultado é válido para qualquer tipo de intervenção Nutricional.

Alcançar os requerimentos de energia e proteína é essencial para obter efeitos clinicamente relevantes, mas a adesão pode não ser ótima. O uso de nutrientes específicos,  como ácidos graxos ômega-3, pode melhorar a eficácia do tratamento. O monitoramento deve ser sempre intensivo e proativo.

 

Fonte: Cox et al. Role of nutritional status and intervention in oesophageal cancer treated with definitive chemoradiotherapy: outcomes from SCOPE1. Br J Cancer 2016.

Efeitos protetores do microbioma contra os antibióticos

 

Existe uma relação simbiótica entre a microbiota intestinal e o hospedeiro. A microbiota apresenta funções metabólicas (enzimas, vitaminas, fermentação) e de barreira. Em resposta à microbiota, as células da mucosa intestinal apresentam alterações na expressão gênica e na função imune intestinal. 

Os fatores que impactam o microbioma são a dieta, os medicamentos, a localização geográfica, os estágios do ciclo de vida, o processo de nascimento, o método de lactação do bebê e o estresse, seja causado pelo exercícios intensos, seja por questões metabólicas ou psicológicas. Entre os medicamentos, os antibióticos apresentam grande impacto na microbiota intestinal.

Os pacientes críticos tratados com múltiplos antibióticos apresentam alterações em seu microbioma. Em um estudo em que foram analisadas fezes desses pacientes, avaliou-se o perfil de resistência antibiótica dos patógenos isolados. Nos pacientes controles (saudáveis), havia dominância de Fimircutes e Bacteroidetes, e a Proteobacteriapermaneceu baixa. Nos pacientes da unidade de terapia intensiva (UTI), 50% tinham dominância de Proteobacteriaou Fimircutes em determinado período. Em 3 pacientes de UTI, as Proteobacterias substituíram totalmente os Fimircutes.

Essa dominância das Proteobacterias persistiu em outros dois pacientes, e constatou-se que, em todos os pacientes que faleceram ou receberam alta, era a bactéria que predominava nas fezes.

Os antibióticos eliminam as bactérias patogênicas e reduzem a diversidade da microbiota, além de alterar a expressão genética e proteica dos peptídeos antimicrobianos e da permeabilidade intestinal. Algumas bactérias comensais são alteradas com a infecção por C. difficile, caso da redução de Clostridia, uma bactéria produtora de butirato, e do aumento de Enterococcus e Lactobacillus. Também ocorrem alterações dos ácidos graxos de cadeia curta, com redução do butirato e do acetato e aumento dos níveis de lactato e succinato.

 

Fonte: Zaborin et al. Membership and behavior of ultra-low-diversity pathogen communities present in the gut of humans during prolonged critical illness. 2014 Sep; 5(5).

Antharan et al. Intestinal dysbiosis and depletion of butyrogenic bactéria in Clostridium difficille infection and nosocomial diarrhea.J Clin Microbiol. 2013 Sep. 51(9).

 

60% dos pacientes oncológicos hospitalizados estão desnutridos

 


Levantamento realizado pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), ligado à Secretaria de Estado da Saúde e à Faculdade de Medicina da USP, apontou que cerca de 60% dos pacientes atingidos pelo câncer apresentam risco nutricional. O estudo revelou ainda que grande parte desses pacientes já chegam para tratamento com quadro de desnutrição.

A desnutrição é prevalente em pacientes com mais de 60 anos, oncológicos ou aqueles submetidos a procedimentos cirúrgicos. Os pacientes com câncer sofrem muito com os efeitos colaterais dos tratamentos. Diversos tipos de câncer estão associados com significativa perda de peso e problemas nutricionais, que ocorrem na época do diagnóstico ou durante o tratamento. Nesta fase acontece a perda de peso, que está associada com pior sobrevida e na redução de resposta ao tratamento.

A detecção da desnutrição no início do tratamento oncológico e ação nutricional imediata estão significativamente associadas à cura da doença. Para conter e reverter esse quadro, o Instituto do Câncer utiliza ferramentas de triagem nutricionais, que vão desde a identificação do risco, o acompanhamento durante todo o tratamento e a disponibilização de suplementos alimentares. 

A indicação de complementos alimentares logo no início do tratamento reduz em cerca de 10% a taxa de mortalidade, ou seja, quanto antes intervirmos, maior é a chance de cura.

Essas ações podem evitar uma série de complicações, como uma pior resposta imunológica, atraso no processo de cicatrização, maior probabilidade de desenvolvimento de lesões por pressão, aumento do tempo de internação, risco de mortalidade e reincidência de internação.

 

Fonte: Secretaria de Estado da Saúde e Braspen