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Efeitos protetores do microbioma contra os antibióticos

 

Existe uma relação simbiótica entre a microbiota intestinal e o hospedeiro. A microbiota apresenta funções metabólicas (enzimas, vitaminas, fermentação) e de barreira. Em resposta à microbiota, as células da mucosa intestinal apresentam alterações na expressão gênica e na função imune intestinal. 

Os fatores que impactam o microbioma são a dieta, os medicamentos, a localização geográfica, os estágios do ciclo de vida, o processo de nascimento, o método de lactação do bebê e o estresse, seja causado pelo exercícios intensos, seja por questões metabólicas ou psicológicas. Entre os medicamentos, os antibióticos apresentam grande impacto na microbiota intestinal.

Os pacientes críticos tratados com múltiplos antibióticos apresentam alterações em seu microbioma. Em um estudo em que foram analisadas fezes desses pacientes, avaliou-se o perfil de resistência antibiótica dos patógenos isolados. Nos pacientes controles (saudáveis), havia dominância de Fimircutes e Bacteroidetes, e a Proteobacteriapermaneceu baixa. Nos pacientes da unidade de terapia intensiva (UTI), 50% tinham dominância de Proteobacteriaou Fimircutes em determinado período. Em 3 pacientes de UTI, as Proteobacterias substituíram totalmente os Fimircutes.

Essa dominância das Proteobacterias persistiu em outros dois pacientes, e constatou-se que, em todos os pacientes que faleceram ou receberam alta, era a bactéria que predominava nas fezes.

Os antibióticos eliminam as bactérias patogênicas e reduzem a diversidade da microbiota, além de alterar a expressão genética e proteica dos peptídeos antimicrobianos e da permeabilidade intestinal. Algumas bactérias comensais são alteradas com a infecção por C. difficile, caso da redução de Clostridia, uma bactéria produtora de butirato, e do aumento de Enterococcus e Lactobacillus. Também ocorrem alterações dos ácidos graxos de cadeia curta, com redução do butirato e do acetato e aumento dos níveis de lactato e succinato.

 

Fonte: Zaborin et al. Membership and behavior of ultra-low-diversity pathogen communities present in the gut of humans during prolonged critical illness. 2014 Sep; 5(5).

Antharan et al. Intestinal dysbiosis and depletion of butyrogenic bactéria in Clostridium difficille infection and nosocomial diarrhea.J Clin Microbiol. 2013 Sep. 51(9).

 

60% dos pacientes oncológicos hospitalizados estão desnutridos

 


Levantamento realizado pelo Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), ligado à Secretaria de Estado da Saúde e à Faculdade de Medicina da USP, apontou que cerca de 60% dos pacientes atingidos pelo câncer apresentam risco nutricional. O estudo revelou ainda que grande parte desses pacientes já chegam para tratamento com quadro de desnutrição.

A desnutrição é prevalente em pacientes com mais de 60 anos, oncológicos ou aqueles submetidos a procedimentos cirúrgicos. Os pacientes com câncer sofrem muito com os efeitos colaterais dos tratamentos. Diversos tipos de câncer estão associados com significativa perda de peso e problemas nutricionais, que ocorrem na época do diagnóstico ou durante o tratamento. Nesta fase acontece a perda de peso, que está associada com pior sobrevida e na redução de resposta ao tratamento.

A detecção da desnutrição no início do tratamento oncológico e ação nutricional imediata estão significativamente associadas à cura da doença. Para conter e reverter esse quadro, o Instituto do Câncer utiliza ferramentas de triagem nutricionais, que vão desde a identificação do risco, o acompanhamento durante todo o tratamento e a disponibilização de suplementos alimentares. 

A indicação de complementos alimentares logo no início do tratamento reduz em cerca de 10% a taxa de mortalidade, ou seja, quanto antes intervirmos, maior é a chance de cura.

Essas ações podem evitar uma série de complicações, como uma pior resposta imunológica, atraso no processo de cicatrização, maior probabilidade de desenvolvimento de lesões por pressão, aumento do tempo de internação, risco de mortalidade e reincidência de internação.

 

Fonte: Secretaria de Estado da Saúde e Braspen 

Indicação Nutricional no tratamento da Úlcera de Pressão

 

Uma úlcera por pressão (UP) é uma lesão localizada da pele e/ou tecido subjacente, normalmente sobre uma proeminência óssea, em resultado da pressão ou de uma combinação entre esta e forças de torção. As úlceras por pressão também estão associadas a vários fatores contribuintes ou de confusão, cujo papel ainda não se encontra totalmente esclarecido.

As úlceras por pressão apresentam alta prevalência e incidência em pacientes hospitalizados, tanto em centros de cuidados primários, como terciários ou em instituições especializadas para idosos ou deficientes físicos. Têm relação direta com a idade do paciente e com as características da instituição onde este se encontra. Em unidades hospitalares de atendimento de urgência, a prevalência de UP varia de 5% a 15%, em casas de repouso, de 15% e 20% e, em centros de reabilitação, de 30% a 50%.

São fatores de risco para a ocorrência de UP: desnutrição, presença de doenças crônicas, imobilidade no leito e uso de algumas drogas, como corticoides, entre outros. Neste sentido, o cuidado nutricional tanto na prevenção como no tratamento das UP é relevante e tem também impacto no controle das demais comorbidades.

A desnutrição é importante fator de risco para o desenvolvimento de UP. As restrições alimentares impostas pelo tratamento de comorbidades e as dificuldades do próprio paciente em aproveitar os nutrientes ingeridos são fatores de risco para estado nutricional debilitado. 

O estado nutricional é fator de risco independente para o surgimento de UP, logo, tem papel direto na prevenção desta enfermidade. Todo paciente com UP deve ser submetido à avaliação nutricional no início do tratamento e reavaliado quando não se observar melhora na lesão ou quando o fechamento da úlcera não for obtido.

O tratamento deverá contemplar os cuidados com a ferida, o controle das doenças associadas e a recuperação do estado nutricional. Neste sentido, a oferta de terapia nutricional individualizada é primordial.

Em relação a oferta calórica, os consensos preconizam oferecer uma quantidade energética individualizada com base na condição médica e no nível de atividade subjacentes. A oferta entre 30 - 35kcal/kg para os adultos em risco de desenvolver úlceras por pressão, assim como, para os pacientes com úlcera por pressão avaliados como estando em risco de desnutrição é o indicado.

O ideal seria as necessidades calóricas serem satisfeitas por uma dieta saudável. No entanto, alguns indivíduos são incapazes ou não estão dispostos a seguir uma dieta adequada. As dietas excessivamente restritas podem tornar a comida desagradável e pouco apelativa e, por conseguinte, reduzir o consumo.

Os suplementos nutricionais orais (SNO), os alimentos enriquecidos e os alimentos hipercalóricos podem ser utilizados para combater a perda de peso não intencional e a desnutrição.

Já quando falamos em oferta proteica, é necessário fazer uso do juízo clínico para determinar o nível proteico adequado a cada indivíduo com base no número das úlceras por pressão, no estado nutricional geral, nas comorbidades e na tolerância a intervenções nutricionais de cada indivíduo. É recomendado a oferta diária entre 1,25 e 1,5g/ kg/ dia de proteínas para adultos em risco de desenvolver úlceras por pressão ou pacientes que já apresentem úlcera por pressão e são avaliados como estando em risco de desnutrição.

Para além da dieta habitual, o uso dos suplementos nutricionais de elevado teor calórico e proteico a adultos em risco nutricional e em risco de desenvolver úlceras por pressão é extremamente indicado caso as exigências nutricionais não sejam satisfeitas através da ingestão alimentar. A utilização dos módulos de proteína são uma dos alternativas de grande valia para o manejo Nutricional desses pacientes.

 

Fontes: Prevenção e Tratamento de Úlceras por Pressão: Guia de Consulta Rápida - NPUAP, EPUAP, PPPIA; Terapia Nutricional para Portadores de Úlceras por Pressão - Sociedade Brasileira de Nutrição Parenteral e Enteral Associação Brasileira de Nutrologia Sociedade Brasileira de Clínica Médica.

 

O uso da fibra alimentar na prevenção do diabetes mellitus

O DM2 é uma das principais doenças crônicas que podem ser evitadas por meio de mudanças no estilo de vida e intervenção não farmacológica. Estudos epidemiológicos e intervencionistas sugerem que a perda de peso é a principal forma de reduzir o risco de diabetes. O alerta mundial para a prevenção do DM2 é reforçado, como mencionado, pelo substancial aumento da sua prevalência nas últimas décadas.

Hábitos alimentares saudáveis devem ser incentivados, existem evidências de que alguns alimentos têm impacto positivo na prevenção do DM2. Alguns estudos sugerem que os cereais integrais podem ajudar a prevenir o DM2. A maior ingestão de nozes, frutas vermelhas, iogurte, café e chá está associada a risco reduzido de diabetes. Por sua vez, o alto consumo de carnes vermelhas e bebidas açucaradas relaciona-se a um risco aumentado de desenvolvimento de DM2.

Algumas fibras dietéticas podem atenuar a resposta à insulina e, assim, auxiliar na prevenção do DM2. Diversas evidências epidemiológicas apontam para esse efeito protetor da fibra e revelam que os efeitos benéficos são decorrentes, principalmente, da ingestão de fibras solúveis.

As fibras consumidas atuam de maneira diversa no controle do diabetes. As solúveis apresentam efeitos benéficos na glicemia e no metabolismo dos lipídios, enquanto as insolúveis agem contribuindo para a saciedade e para o controle de peso. Além disso, ambas atuam na preservação da saúde intestinal.

Alguns estudos de coorte demonstram que dietas ricas em fibra dietética estão associadas a menor risco de doença cardiovascular. A V Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose reforça a evidência de que o consumo de fibras solúveis está associado à redução do colesterol da lipoproteína de baixa densidade (LDL-c) e do colesterol total.

 

Fonte: Diretrizes SBD | 2017-2018 

Intervenção Nutricional no Idoso

 

A avaliação do consumo alimentar é um dos aspectos mais difíceis a serem considerados na avaliação nutricional, em razão da dificuldade em quantificar e detalhar os alimentos consumidos. No caso do uso do método de inquérito do recordatório de 24 horas, devem-se considerar os possíveis déficits de memória que ocorrem para indivíduos idosos.

Várias alterações afetam o hábito alimentar do idoso de maneira significativa. O declínio da ingestão alimentar ocorre, em parte, pela perda da qualidade dos sentidos (olfato e paladar), da mastigação, da deglutição e por comprometimento da função gastrointestinal. Alguns estudos relatam que algumas modificações dietéticas na alimentação dos idosos podem ser necessárias em razão das mudanças fisiológicas que podem afetar a habilidade para digerir e absorver alimentos, os quais devem ser nutritivos e saborosos.

As Dietary Reference Intakes (DRIS), ou Ingestões Alimentares de Referência, apresentaram mudanças em relação às necessidades de micronutrientes para pessoas idosas. Vale ressaltar que essas recomendações são para idosos saudáveis, de modo que, neste consenso, deve-se considerar que idosos hospitalizados podem ter necessidades superiores.

A prevalência de gastrite atrófica está em torno de 40 a 50% dos idosos com idade superior a 80 anos. Nesse caso, recomenda-se o aumento no consumo de alimentos fontes de vitamina B12, fortificados ou suplementação alimentar. Há grande interesse na prevenção e no tratamento da deficiência de vitamina B12 entre idosos, porque sua deficiência pode resultar no aumento da concentração de homocisteína no plasma e, consequentemente, em aumento de doença vascular, prejuízo neurológico e disfunção cerebral.

Vários estudos têm demonstrado que, embora a ingestão de vitamina A por idosos esteja abaixo das recomendações, seus níveis séricos encontram-se normais, sugerindo a redução dos valores de referência atuais. 

Evidências indicam que a ingestão de proteínas em valor superior às Recommended Dietary Allowance (RDA) pode melhorar a massa muscular, a força e a funcionalidade, o estado imunológico, a cicatrização, a pressão sanguínea e a saúde óssea. Para idosos, se recomenda o consumo de 1,5 g de proteínas/kg/dia ou em torno de 15 a 20% do valor calórico total (VCT) ingerido, a fim de melhorar a funcionalidade.

É comum o idoso internado reduzir sua ingestão calórica por inapetência e/ou disfagia, o que pode levar a deficiências nutricionais. O agravante dessa situação é que apenas 10% deles terão capacidade de consumir quantidades suficientes de alimentos para corrigí-las.

A TN deve ser indicada com a finalidade de complementar ou suplementar as necessidades nutricionais e não deve ser utilizada como substituta das refeições ou como única fonte alimentar

Metanálises demonstraram que a TNO tem efeito positivo no estado nutricional, com ganho de peso, redução do tempo de permanência hospitalar e redução da mortalidade. Assim, a definição sobre a quantidade, a qualidade, a composição e a consistência da TNO deve ser individualizada segundo a morbidade, o estado nutricional, a aceitação alimentar e o grau de disfagia de cada paciente.

Cabe ao nutricionista e/ou fonoaudiólogo orientar e treinar o paciente e/ou seus cuidadores a utilizar tais propostas. Estudos confirmam que, se balanceada e bem preparada, a dieta adaptada à disfagia pode substituir a dieta usual sem impacto no estado nutricional, proporcionando refeições seguras e prazerosas

 

Fontes: I Consenso Brasileiro de Nutrição e Disfagia em idosos hospitalizados; Shuman JM. Nutrição no envelhecimento. In: Mahan LK, Escott-Stump S (orgs.). Krause – alimentos, nutrição e dietoterapia. São Paulo: Roca, 1998;  Santelle O, Lefévre AMC, Cervato AM. Alimentação institucionalizada e suas representações sociais entre moradores de instituições de longa permanência para idosos em São Paulo, Brasil. Cad Saúde Pública 2007; 23(12):3061-5.

Nutrição no Câncer

 

 

Os cânceres estão entre as principais causas de morbidade e mortalidade em todo o mundo, e espera-se que o número de novos casos aumente significativamente nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, todos os tipos de tratamento contra o câncer, como cirurgia, radioterapia e terapias farmacológicas, estão melhorando em sofisticação, precisão e no poder de direcionar características específicas de cânceres individuais. Assim, enquanto muitos cânceres ainda podem não ser curados, eles podem ser convertidos em doenças crônicas. Todos esses tratamentos, no entanto, são impedidos pelo frequente desenvolvimento de desnutrição e disfunções metabólicas em pacientes com câncer, induzidos pelo tumor ou por seu tratamento.

O ponto importante é que, ao contrário da desnutrição simples, o balanço energético negativo e a perda de massa óssea observados em pacientes com câncer são impulsionados por uma combinação de redução da ingestão de alimentos e desequilíbrios metabólicos (por exemplo, elevada taxa metabólica de repouso, resistência à insulina e lipólise) e proteólise que agravam a perda de peso e são provocadas por inflamação sistêmica e catabolismo.

Intervenções nutricionais e metabólicas visam manter ou melhorar a ingestão de alimentos e diminuir os desequilíbrios metabólicos, manter a massa muscular esquelética e o desempenho físico, reduzir o risco de reduções ou interrupções de tratamentos anticâncer programados e melhorar a qualidade de vida. Infelizmente, faltam dados que definam o melhor momento para iniciar o suporte nutricional.

Portanto, a terapia nutricional deve preferencialmente ser iniciada quando os pacientes ainda não estão gravemente desnutridos e quando os objetivos do tratamento incluem manter ou melhorar o estado nutricional. O suporte nutricional deve ser oferecido a pacientes com probabilidade de desenvolver anorexia ou defeitos gastrointestinais devido aos efeitos colaterais do tratamento. Pacientes gravemente desnutridos que estão em tratamento ativo devem receber terapia nutricional imediatamente.

As terapias para desnutrição associada ao câncer incluem o aconselhamento nutricional por um profissional de saúde considerado como de 1ª linha de terapia nutricional, onde o profissional visa proporcionar ao paciente uma compreensão completa dos tópicos nutricionais que podem levar a mudanças duradouras nos hábitos alimentares. Claramente, a melhor maneira de manter ou aumentar a ingestão de energia e proteína é com a comida normal. No entanto, isso geralmente é difícil e, além do aconselhamento, são necessários suplementos nutricionais orais a fim de suplementar a ingestão de alimentos.

Se a ingestão de nutrientes continuar inadequada, a nutrição suplementar ou completa por via oral, enteral ou parenteral pode ser indicada, dependendo do nível de função do trato gastrointestinal.

Geralmente, a primeira forma de apoio nutricional deve ser o controle dos sintomas e o encorajamento da ingestão de alimentos e fluidos enriquecidos com energia que sejam mais bem tolerados. Uma dieta enriquecida em energia e proteína é a maneira preferida de manter ou melhorar o estado nutricional. O uso adicional de suplementação é recomendado quando uma dieta enriquecida não é eficaz para alcançar objetivos nutricionais.

A nutrição artificial é indicada se os pacientes não puderem comer adequadamente (por exemplo, nenhum alimento por mais de uma semana ou menos de 60% da necessidade por mais de 1 e 2 semanas). Se tiver sido tomada uma decisão de alimentar um paciente, é recomendado nutrição enteral se a nutrição oral permanecer inadequada apesar das intervenções nutricionais (aconselhamento e suplementos nutricionais orais) e nutrição parenteral se a nutrição enteral não for suficiente ou viável.

Devido à sua baixa palatabilidade, as dietas cetogênicas podem levar a uma ingestão insuficiente de energia e perda de peso, e além disso, não há ensaios clínicos demonstrando benefício de uma dieta cetogênica em pacientes com câncer. Dois estudos piloto sem grupos controle em pacientes com glioblastoma ou tumores sólidos avançados mistos não observaram respostas do tumor.

Além de apoiar a saúde, o alimento e a alimentação têm papéis importantes na estabilização psicológica e na integração social e, por isso, afetam a qualidade de vida. O aconselhamento nutricional deve considerar e objetivar a manutenção ou melhoria de todos esses aspectos. Isso exigirá averiguar hábitos e preferências individuais. Além disso, o aconselhamento eficaz requer habilidades de comunicação adequadas para garantir a alta conformidade com o aconselhamento nutricional individualizado dado.

 

Fonte:  Arends J, et al. ESPEN guidelines on nutrition in cancer patients. Clinical Nutrition (2016)

 

LIVRO | Gastronomia Hospitalar no Câncer e TMO

 

 

 

No dia  12 de abril desse ano, foi lançado o livro “Gastronomia Hospitalar no Câncer e TMO”, escrito pelo onco-hematologista, coordenador de Transplante de Medula Óssea do Hospital 9 de Julho e diretor clínico da Oncocenter Celso Massumoto.

O livro tem como objetivo contribuir para que novas experiências gastronômicas ocorram na vida dos pacientes oncológicos e no ambiente hospitalar, oferecendo uma refeição visivelmente atraente, balanceada, com sabor e adequada para cada tipo de patologia. 

O livro traz recomendações nutricionais para melhorar os sintomas causados pelos tratamentos quimioterápicos e radioterápicos, fala das funções e efeitos de alimentos funcionais, principais nutrientes e mudança de estilo de vida para a prevenção do câncer. A obra também traz receitas especiais para prevenção e tratamento do câncer desenvolvidas pela chef Bel Coelho.

 

Corra e confira!

 

Acesse: bit.ly/2q8hCNS

 

Ômega 3 no paciente oncológico

 

 

Nos últimos anos, o óleo de peixe tornou-se um popular suplemento nutricional devido a numerosos estudos amplamente divulgados sobre o seu papel no tratamento e prevenção de uma variedade de doenças e distúrbios, tais como doenças coronarianas, artrite reumatoide, depressão, câncer, e dismenorréia.

Em relação ao câncer, os efeitos do óleo de peixe têm sido descritos como protetores, antiinflamatórios, inibidores do crescimento e apoptóticos. Considerando essas evidências, a suplementação com óleo de peixe pode eventualmente se tornar uma terapia complementar estabelecida para o tratamento tradicional do câncer.

Alguns estudos usando modelos animais, mostraram repetidamente que o crescimento de cânceres quimicamente induzidos e de xenoenxertos de câncer humano pode ser retardado ou completamente inibido pela incorporação de ácidos graxos (n-3) na dieta. Existem alguns estudos que indicam que os ácidos graxos (n-3) podem ser benéficos para a terapia do câncer humano.

Vários mecanismos de ação foram propostos para explicar como os ácidos graxos (n-3) podem modificar o processo de carcinogênese, tais como: supressão da biossíntese dos eicosanóides derivados do ácido araquidônico; influência na atividade do fator de transcrição nuclear, na expressão gênica e nas vias de transdução de sinais; alteração do metabolismo do estrogênio; aumento ou diminuição da produção de radicais livres e espécies reativas de oxigênio e; influência nos mecanismos envolvendo a resistência à insulina e a fluidez das membranas.

Os benefícios do uso de suplementos contendo ácidos graxos (n-3) em pacientes oncológicos parecem claros. E considerando os poucos efeitos colaterais relatados, acredita-se que a suplementação desse nutriente esteja indicada nessa população. Para que a intervenção nutricional no câncer atinja seu potencial, os nutrientes envolvidos e o tempo de tratamento específico doses precisam ser otimizadas para interferir adequadamente na carcinogênese e aumentar a taxa de resposta ao tratamento.

 

Fontes: Hardman WE. Fatty Acids (n-3) and Cancer Therapy. J Nutr 2004; 134: 3427S-3430S; Fearon KCH, von Meyenfeldt MF, Moses AGW, et al. Effect of a protein and energy dense n-3 fatty acid enriched oral supplement on loss of weight and lean tissue in cancer cachexia: a randomised double blind trial. Gut 2003;52:1479-86.

Evolução da dieta no pós operatório de cirurgias digestivas

A nutrição oral pode ser iniciada, na maioria dos casos, imediatamente após a cirurgia, já que nem a descompressão gástrica ou esofágica, nem a ingestão oral tardia, mesmo após colecistectomia ou ressecção colorretal, mostraram-se benéficas. Alimentos normais precoces ou Nutrição Enteral, incluindo líquidos claros no primeiro ou no segundo dia de pós-operatório, não causam comprometimento da cicatrização de anastomoses no cólon ou no reto e levam a um tempo de internação hospitalar menor. Isto foi enfatizado por uma revisão sistemática Cochrane. Meta-análises recentes mostraram benefícios significativos em relação à recuperação pós-operatória e taxa de infecção.

Osland et al, em 2011, avaliou em metanálise 15 estudos com um total de 1.240 pacientes e mostrou que a dieta líquida por Via Oral (V.O) ou enteral liberada nas primeiras 24h de Pós operatório (P.O), reduz em 45% o risco de complicações no P.O e não afeta negativamente resultados de deiscência de anastomose, retomada da função intestinal e mortalidade. Entretanto, na prática clínica, ainda é rotina reiniciar a dieta V.O somente após o retorno da peristalse intestinal e/ou eliminação de flatos. O retorno da peristalse intestinal ocorre entre 5 a 7h , não justificando a permanência do paciente em jejum por mais de 12h no P.O. Além disso, o reinício precoce da dieta estimula a peristalse intestinal contribuindo para o retorno do ritmo intestinal.

A nutrição oral precoce é também um componente chave do Programa Enhanced Recovery After Surgery - ERAS, um programa multidisciplinar, baseado na evidência e centrado no doente, com o objetivo final de diminuir as complicações e melhorar a recuperação cirúrgica, que demonstrou uma taxa significativamente mais baixa de complicações e tempo de permanência hospitalar em meta-análises dos estudos randomizados. Uma meta-análise de 15 estudos (oito ensaios clínicos randomizados) com 2112 pacientes adultos submetidos a cirurgia gastrointestinal alta mostrou estadia hospitalar pós-operatória significativamente mais baixa em pacientes alimentados por via oral precoce sem diferença nas complicações, com especial atenção aos vazamentos de anastomose.

No período pós-operatório hospitalar multicêntrico. , o tempo de permanência foi significativamente menor no grupo ERAS submetido à cirurgia laparoscópica. Uma meta-análise recente confirmou a redução da morbidade e hospitalização por combinação de cirurgia laparoscópica.

Estudos mostram que os benefícios da alimentação precoce ainda são discutíveis, embora ensaios clínicos demonstrem redução das complicações por infecção e redução no tempo de internação. A evolução da dieta V.O no P.O de cirurgias digestivas vai depender das condições clínicas do paciente e do tipo de cirurgia realizada. 

 

Fonte: Weimann A, Braga M, Carli F, Higashiguchi T, Hübner M, Klek S, Laviano A, Ljungqvist O, Lobo DN, Martindale R, Waitzberg DL, Bischoff SC, Singer P. ESPEN guideline: Clinical nutrition in surgery. Clin Nutr. 2017 Jun;36(3):623-650.

Ômega 3 nas doenças críticas

Os ácidos graxos poliinsaturados (PUFAs) da série ômega-3 são nutrientes essenciais, uma vez que não podem ser produzidos por seres humanos e cuja ingestão, com alimentos e / ou suplementos, está associada a vários benefícios para a saúde. Os PUFAs ômega-3, encontrados principalmente em óleos de peixe na dieta, são derivados também de plantas e são substratos capazes de reduzir ou limitar a inflamação em doenças críticas. Os mecanismos moleculares subjacentes responsáveis pelos efeitos biológicos dos PUFAs ômega-3 são mediados pela produção de mediadores pré-solventes, que têm sido propostos para modular e, provavelmente, resolver as respostas inflamatórias. Os mediadores lipídicos especializados (SPMs) sintetizados a partir dos ácidos graxos ômega-6 como litorinas e do ômega-3 como resolvidas, protections e maresia e são conhecidos não somente como moléculas antiinflamatórias, mas também pelo papel fundamental na indução da resolução ativa da inflamação.

Os SPMs desempenham um papel chave direto na resolução da inflamação, incluindo a inibição da migração de neutrófilos, o aumento da fagocitose macrofágica de neutrófilos apoptóticos e a supressão de citocinas e quimiocinas pró-inflamatórias, em particular durante a doença aguda. A expressão gênica de SPMs em tecidos humanos se correlaciona com resultados em pacientes gravemente enfermos.

A resolução da inflamação é considerada um processo ativo, nos pacientes críticos, estes SPMs parecem regular a resposta inflamatória pós-trauma, alterando a produção de citocinas pro-inflamatórias e protegendo os órgãos contra os danos colaterais.

A administração de ácidos graxos ômega-3 em pacientes cirúrgicos e agudamente doentes pode estar associada a melhores resultados e redução dos custos de saúde, no período pós-operatório em termos de redução nos tempos de infecção na UTI e internação hospitalar, enquanto nenhuma diferença significativa na taxa de mortalidade foi documentada entre pacientes recebendo emulsões parenterais enriquecidas com AGPIs ômega-3 e aquelas recebendo emulsões lipídicas padrão. Os últimos resultados da meta-análise clínica em pacientes internados em UTI documentaram uma redução de infecções e uma redução no tempo de permanência hospitalar em pacientes pós-operatório de cirurgia cardíaca.

No entanto, ainda existem controvérsias sobre as indicações para o uso de emulsão lipídica específica em pacientes em UTI. Além disso, a possibilidade de avaliar os níveis circulantes de SPMs antes, durante e após a suplementação de ômega-3, bem como a administração de SPMs, possivelmente permitirá avaliar a eficácia do tratamento e esclarecer melhor os mecanismos pelos quais o ômega-3 e os mediadores derivados de PUFA podem conferir benefícios clínicos em pacientes criticamente doentes.

 

Fonte: Molfino A, Amabile MI, Monti M, Muscaritoli M. Omega-3 Polyunsaturated Fatty Acids in Critical Illness: Anti-Inflammatory, Proresolving, or Both? Oxid Med Cell Longev. 2017;2017:5987082.